Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, trouxe novas perspectivas sobre a depressão crônica e suas implicações nas redes de comunicação cerebral. A pesquisa indica que a duração do transtorno é um fator crucial para as mudanças estruturais no cérebro, além da gravidade dos sintomas.
Conexões cerebrais afetadas
A pesquisa identificou que pacientes com depressão crônica, ou seja, aqueles com mais de 24 meses de sintomas, apresentam padrões de conectividade diferentes em comparação com os pacientes que enfrentam episódios depressivos mais curtos. Tamires Zanão, primeira autora do estudo, destacou que as redes funcionais do cérebro, a Rede Executiva Central e a Rede de Modo Padrão, se comunicam de maneira distinta entre esses grupos.
A Rede Executiva Central é responsável por funções como atenção e planejamento, enquanto a Rede de Modo Padrão lida com processos internos, como a memória e a autorreflexão. Normalmente, o cérebro alterna entre essas redes de forma equilibrada, mas a depressão pode desestabilizar esse funcionamento, favorecendo uma predominância de pensamentos negativos.
Impactos do tempo na saúde mental
Os pesquisadores também descobriram que a gravidade dos sintomas de depressão se relaciona com a força da conexão entre as redes cerebrais. Em pacientes com episódios mais recentes, a intensidade dos sintomas estava ligada a uma conexão mais fraca. Em contrapartida, nos pacientes com depressão crônica, a severidade dos sintomas estava associada a uma conectividade mais forte entre as redes, refletindo mudanças progressivas na comunicação cerebral.
Alterações na massa cinzenta
O estudo também revelou que a gravidade dos sintomas impacta o volume de massa cinzenta em regiões específicas do cérebro. O córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal dorsolateral direito, importantes para a regulação emocional e controle da atenção, apresentaram variações de volume que podem influenciar o funcionamento cerebral em pessoas com depressão.
Embora um maior volume de massa cinzenta em indivíduos saudáveis geralmente indique um melhor funcionamento cerebral, os dados para pacientes com depressão podem variar, especialmente devido ao uso de antidepressivos. Como a pesquisa focou em pacientes que não estavam em tratamento medicamentoso no momento da análise, foi possível observar alterações cerebrais sem essas interferências.
Perspectivas para tratamentos futuros
Os resultados deste estudo são promissores, pois podem contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais personalizados para a depressão. A escolha do tratamento ainda requer ajustes individuais, já que a resposta ao tratamento pode variar significativamente entre os pacientes. Os autores do estudo enfatizam a necessidade de mais dados antes que essas descobertas possam ser aplicadas clinicamente.
A investigação foi coordenada pelo professor André Brunoni da USP, com análises realizadas durante o pós-doutorado de Tamires Zanão na Universidade de Oxford, com apoio da FAPESP. Os dados foram obtidos de 46 pacientes, integrando um ensaio clínico em andamento.




