A produção de carros elétricos gera até três vezes mais gases de efeito estufa em comparação à fabricação de veículos a combustão. Para que esses automóveis movidos a bateria tragam benefícios ao meio ambiente, é preciso que percorram distâncias consideráveis. Essa é a conclusão do estudo "Do berço ao portão: Pegada de carbono da produção de veículos leves fabricados no Brasil", realizado pela FGV (Fundação Getulio Vargas) e pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Metodologia da Pesquisa

A pesquisa abrangeu o ciclo de vida da indústria automobilística no Brasil, desde a extração da matéria-prima até a finalização da manufatura. O estudo analisou as emissões de três categorias de veículos: hatch, sedã e SUV, considerando quatro tecnologias de propulsão: veiculos a combustão, híbridos, híbridos plug-in e elétricos.

Emissões de CO2e

Os dados revelam que a fabricação de um SUV a combustão emite, em média, 5.366 kg de CO2e, enquanto um SUV elétrico do mesmo segmento emite 12,5 mil kg de CO2e. Para os sedãs, a diferença é ainda mais acentuada, com 4.745 kg de CO2e para os modelos a combustão e 16,2 mil kg de CO2e para os elétricos. Esses números foram obtidos a partir dos veículos mais vendidos no país em 2023, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores.

Impacto dos Componentes

Os pesquisadores afirmam que mais de 90% das emissões na fabricação se concentram na fase de extração e pré-processamento da matéria-prima, principalmente devido ao uso de aço, alumínio e plásticos. Além disso, a produção das baterias de veículos elétricos representa cerca de 50% da pegada de carbono gerada.

Benefícios ao Longo da Vida Útil

Apesar das altas emissões na fabricação, um veículo elétrico pode emitir menos CO2 durante sua vida útil caso seja alimentado por energia renovável. O estudo calculou o ponto de "break-even", que é a quilometragem necessária para que o veículo elétrico tenha emissões acumuladas inferiores às alternativas a combustão. Um SUV elétrico precisa percorrer cerca de 93 mil km para alcançar igualdade com um modelo flex, enquanto um híbrido plug-in exige 177 mil km.

Comparação Internacional

A pesquisa também aponta que os carros fabricados no Brasil podem ter uma pegada de carbono até 30% menor em comparação aos produzidos no exterior, devido à maior presença de fontes renováveis na matriz elétrica nacional. No entanto, essa vantagem pode variar entre os modelos e ser reduzida devido a perdas materiais na cadeia produtiva.

Conclusão

De acordo com Joaquim Seabra, professor da Unicamp e um dos autores do estudo, é fundamental aproveitar a atual janela de oportunidade para atrair investimentos e explorar as condições favoráveis de energia renovável do Brasil, já que outros países estão rapidamente mitigando suas emissões.