O governo brasileiro avança em um plano inédito de financiamento internacional. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o país pretende emitir seus primeiros títulos panda nos próximos dois a três meses, em operação capaz de arrecadar até 5 bilhões de yuans — cerca de US$ 734,99 milhões. As declarações foram feitas em entrevista à agência Reuters, em Pequim, na última quinta-feira (25).

No início do mês, o Executivo já havia sinalizado a intenção de buscar recursos no mercado chinês, mas sem revelar os valores envolvidos. Agora, com a estimativa divulgada, ganha contornos mais concretos uma estratégia que pode marcar uma nova fase nas relações financeiras entre Brasil e China.

O que são os Panda Bonds

Os chamados Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por governos ou empresas estrangeiras dentro do mercado financeiro chinês e negociados em yuan, a moeda local. Na prática, ao adquirir esses papéis, os investidores emprestam dinheiro ao governo brasileiro, que se compromete a devolver os valores no futuro acrescidos de juros.

Caso a operação seja confirmada, será a primeira vez que o Brasil recorre a esse instrumento para captar financiamento no mercado da China. Procurado pela Reuters, o Ministério da Fazenda preferiu não comentar o assunto.

Estratégia de diversificação

A iniciativa surge poucos meses depois de o Brasil realizar sua primeira emissão de títulos em euros desde 2014. Em abril, o governo captou 5 bilhões de euros, cerca de R$ 29 bilhões, junto a investidores internacionais. De acordo com a Reuters, a emissão dos Panda Bonds integra o esforço do Ministério da Fazenda para diversificar as fontes de financiamento do país e ampliar sua presença nos mercados globais.

O objetivo central é reduzir a dependência do dólar e alcançar investidores de outras regiões do mundo, com destaque para a China. O anúncio oficial deve ocorrer durante uma viagem de autoridades brasileiras a Xangai e Pequim, entre os dias 24 e 26 de junho, com agenda liderada por Dario Durigan.

China amplia presença na economia brasileira

A missão acontece em um momento de fortalecimento das relações econômicas entre os dois países. A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil. No ano passado, o território brasileiro foi o maior destino dos investimentos chineses no mundo, recebendo US$ 6,1 bilhões — aproximadamente R$ 30 bilhões — em novos projetos e negócios, conforme relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Esse montante representa 10,9% de todo o investimento chinês feito no exterior no período, colocando o Brasil à frente de nações como Estados Unidos, Indonésia e Cazaquistão. O país foi ainda o único a permanecer entre os cinco principais destinos do capital chinês ao longo dos últimos cinco anos.

Tensões com os EUA e agenda de sustentabilidade

O movimento de aproximação com Pequim também se dá em meio a tensões com os Estados Unidos, depois que o governo de Donald Trump propôs novas tarifas sobre produtos brasileiros e classificou facções criminosas do país como organizações terroristas. Antes da viagem, representantes do Brasil e da China devem participar de uma reunião de um subcomitê financeiro bilateral.

Além das questões econômicas, o governo brasileiro pretende apresentar iniciativas ligadas à sustentabilidade, como o programa Eco Invest Brasil, o projeto Tropical Forest Forever Facility (TFFF), voltado à preservação de florestas tropicais, e os avanços na criação de um mercado regulado de carbono. A expectativa é que essas medidas ajudem a atrair ainda mais investimentos chineses para setores estratégicos da economia nacional.